Criada e dirigida por Esmir Filho (Alguma coisa assim), e com nomes importantes como Denise Fraga (O auto da compadecida), Bianca Byington (Noites de reis) e Bruno Garcia (De pernas pro ar). A série nos apresenta a uma pequena cidade rural e pecuarista no interior de Goiás, onde um grupo de adolescentes passam por pânico e tensão quando são ameaçados por um surto epidêmico causado por uma infecção contagiosa transmitida pelo beijo.
Quando me propus a assistir a essa série não pesquisei nada a respeito, muitas vezes faço isso para não ter nenhum tipo de spoiler, simplesmente liguei a minha netflix, vi que tinha produção nova lançada, na época estava no top 10 da Netflix, por isso apenas com um clique comecei a maratona, mal sabia eu que eu estava prestes a ver uma verdadeira obra de arte.
Primeiro fui alterar o áudio, pois não gosto de assistir nada dublado, prefiro ouvir o áudio original, quando na verdade descobri que não estava dublado, e que se tratava de uma produção originalmente nacional gravado em nosso tão querido português.
Logo nas primeiras cenas a série já me conquistou muito me entregando lindas cenas no estilo psicodélico de uma balada ao ar livre, luzes roxas, rosas, violetas e azuis por toda a parte, sensualidade à mil. Não conseguimos extrair cem por cento da narrativa central apenas dessas imagens, obviamente, entretanto conseguimos sim entender um pouco da atmosfera da história, o que esperar dessa história envolvente e tão bem produzida.
Os personagens principais são os jovens Francisco (Michel Joelsas), Fran (Iza Moreira) e Alex (Caio Horowicz). Os três se encontram em um dilema quando a jovem Isabel (Luana Nastas) apresenta um quadro de sintomas não identificáveis de uma doença transmitida pela saliva e beijo, sabendo que podem ser os próximos e ao verem cada vez mais jovens apresentarem os sintomas que consistem em delírios, perda dos sentidos e pupilas esbranquiçadas, os mesmos precisam traçar um plano para que menos pessoas sofram as conseqüências dessa terrível nova doença, traçando assim um mapa do beijo, que funciona para sabermos quem beijou quem e quem tem chances de transmitir para outras pessoas, no entanto muito coisa dá errada ao longo do caminho.
O roteiro é envolvente, muito bem escrito, não existe enrolação, toda cena é crucial, toda cena está apresentando algo que utilizaremos mais tarde. Este é um dos trunfos de nos entregar um material mais compacto, afinal seis episódios foram o suficiente para nos contar um começo, meio e fim muito bem desenvolvidos e elaborados, sem a necessidade de nos encher de linguiça ao contrário do que acontece em outras séries adolescentes como 13 Reasons Why e Riverdale.
A fotografia é simplesmente cristalina e toda gravada em 4k (Ultra Hd), portanto sim, é “cinema” de alta qualidade. A iluminação como dito anteriormente intercala entre uma paleta de cores psicodélica quando nos levam para as intensas baladas da cidade e uma iluminação mais clean durante o cotidiano comum dos personagens. Mostrando não só a diferença dos ambientes, mas também contrastando a diferença de mundos entre a vida real e a vida mascarada da noite desses jovens.
A trilha sonora é outro diferencial, nos entregando uma ótima playlist variada de estilos que são tanto da língua portuguesa quanto inglesa.
As atuações são muito boas e não me refiro à apenas os atores veteranos, todos entregaram e foram muito plausíveis em suas atuações, nos entregando personagens fortes e profundos. O destaque vai para o jovem Michel Joelsas que como Francisco entregou diversas facetas de um personagem bem construído, seja em momento de alegria, momentos de tristeza, momentos que estava se desentendendo com alguém ou simplesmente sendo vulnerável, ele mandou muito bem. Outra que não poderia ser diferente é Denise Fraga que interpretou a complexa diretora do colégio, Guiomar Araújo, no piloto eu fiquei desconfiado que eu teria uma relação de amor e ódio com ela e o meu instinto seriemaníaco não estava errado.
Guiomar não é a vilã da série, ela só é uma mulher como qualquer outra, que sendo mãe e diretora, segue os instintos e vontades, ideologias e métodos de disciplina, não de maneira tirânica, mas de maneira humana e carregada que apenas quem tem certeza de suas concepções poderia seguir.
Me senti tenso do começo ao fim da história. Sempre que falam sobre doenças, epidemia, ainda mais levando em consideração o momento pelo qual estamos passando agora com a Covid 19, impossível não levar isso para um grau maior e ficarmos abalados com uma série que nos conduz à nossa própria realidade.
Um outro tema bastante recorrente é a relação entre pais e filhos da série, os conflitos e o amor profundo que simultaneamente são tão palpáveis e concretos nesse tipo de vínculo eterno. O episódio final me entrega as cenas mais emocionantes e belas de todas, que é o momento da piscina do colégio, em que pela primeira vez vemos os pais se colocando no lugar de vulneráveis e abrindo os seus corações para os seus filhos.
Surpreendendo mais uma vez em uma produção nacional, a Netflix não está dando uma chance meramente de divulgarmos o nosso trabalho ao mundo, mas também de nos auto-valorizarmos, sendo que o cinema e televisão brasileira são tão menosprezados inclusive por nós mesmos.
Ainda não foi divulgada uma sequência, o que é normal vindo da plataforma que aguarda alguns meses para avaliar a audiência da empreitada.
Não tenho muita certeza da necessidade de uma segunda temporada, mas a minha vontade tem certeza que quer ver mais ! Rs...
Ousada, profunda, instigante e apavorante, Boca a Boca entra na lista de séries nacionais que eu mais gostei, e vocês, já assistiram? Pretendem assistir? Deixem o seu comentário!
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