Em uma época tão intensa e importante em Hollywood como a que
estamos passando com o movimento Me too, onde denúncias de assédio sexual estão
vindo à tona, o momento de liberarem uma série como The morning show nunca
pareceu tão oportuno.
Inspirada no livro Top of the Morning: Inside the
Cutthroat World of Morning TV do jornalista Brian Stelter e criada por Jay Carson,
também responsável pelo roteiro do filme O favorito, estrelado por Hugh Jackman
(2018), a série traz uma crítica sagaz e política à sociedade do estupro, book
rosa e misógina, aliás política não parece ser um problema para esse roteirista
que antes de se aventurar no cinema e plataforma de streamings já trabalhou
para campanhas de famosos políticos como Bill Clinton, Hillary Clinton, Dean
Howard, etc. Sim, existe um clima de campanha eleitoral durante os episódios,
agitada e frenética, o que não tira o seu mérito, de jeito algum.
A história é sobre um programa de televisão matinal, daqueles
bem padrõezinhos com os quais estamos acostumados, onde existem dois âncoras,
uma é Alex Levy (Jennifer Aniston - Friends, Mistério no mediterrâneo) e o
outro é Mitch Kessler (Steve Carell - The office, O virgem de quarenta anos).
Com seus salários milionários e suas vidas rotineiras os mesmos jamais
imaginariam que após uma certa madrugada suas vidas nunca seriam as mesmas.
Ao ser denunciado por assédio sexual Mitch é demitido do
programa que estava há dezesseis anos, e é aí que entra Bradley Jackson (Reese
Witherspoon - Big Little Lies, Legalmente loira), ao se destacar em uma
manifestação a jornalista que sempre trabalhou como repórter de jornais locais é viralizada
por um vídeo postado no YouTube e logo se torna uma celebridade e é convidada
para ser entrevistada por Alex no The morning show. Vendo potencial na garota,
um dos produtores decide dar uma chance à novata e de entrevistada Jackson é
convidada para se tornar a nova âncora, bem… convidada não seria bem a palavra,
só assistindo para entender rs..
A produção da série é incrível, o roteiro bem estruturado do
começo ao fim. A fotografia é fenomenal, a iluminação solar, afinal, o intuito
principal é remeter o tempo inteiro à sol, dia, manhã, ao programa em si. Não
costumo falar de aberturas, mas a abertura de The morning show me conquistou
tanto que eu nunca a pulava, ao som da música tema de Benjamin Clementine – Nemesis,
confesso deixava rolar todas as vezes.
Ao retratar os bastidores conflituosos de um programa matinal a
série nos traz uma realidade interessante sobre esses programas, uma perspectiva
de quem só trabalha ou trabalhou no show business sabe e poderia nos conceder.
Esse é o verdadeiro segredo do sucesso da série, mostrar o lado obscuro das tão
iluminadas programações perfeitas e diurnas e o quão essa indústria,
infelizmente é regada à polêmicas, más condutas e abusos que podem nunca chegar
aos ouvidos do grande público.
Claro que o trunfo também se deve às grandes e excepcionais
atuações, Jennifer Aniston entregou tudo de si e depois de Cake (quem não
assistiu a esse filme, termine de ler esse post e corra para ver) é a sua maior
atuação, não é à toa que a atriz adquiriu um SAG Awards de melhor atriz em série
dramática com o papel, mais que merecido. Esse é um projeto que possibilitou a
atriz discorrer e explorar um outro lado do que é ser uma artista, um lado que
vindo dela ainda era desconhecido. Inclusive algumas das minhas cenas
prediletas são as que ela está presente como a cena em que conseguimos
vislumbrar um pouco de seu talento musical no episódio cinco quando ela canta
Nothing can harm you, Not While I'm Around,
do musical Sweeney Todd e no terceiro episódio em que ela está em uma
reunião com os produtores do programa, discutindo e inicia uma duscursso (forte por sinal) dizendo “A América me ama”,
sim J, a América te ama desde 1994!
Reese Whitherspoon sempre impecável em todo projeto em que
participa mais uma vez fez a sua parte como a genuína e intrigante Bradley
Jackson, gente, a Bradley é a minha personagem predileta da série, a cena em
que ela discute com o cara na manifestação na mina de carvão no piloto foi sem
explicação, entretanto apesar de sua importância eu a senti meio de escanteio
em muitos momentos, comentem e me digam se estou delirando ou não. Esperava muito mais por parte da personagem.
Steve Carrell é outro, que conseguiu trazer toda a essência de um homem
contemporâneo, estruturalmente machista, aquele que se diz amigão das mulheres,
um super esquerdista e apoiador da causa feminista, mas que no fundo quer
apenas aquilo... Vocês sabem o que é...
Tanto Reese quanto Jennifer além de protagonizarem também
entraram no projeto como produtoras executivas.
Outros personagens secundários como Cory Allison (Billy Crudup –
Quase famosos, Watchmen), Charlie Black (Mark Duplass - Creep) e Hannah
Shoenfeld (Gugu Mbatha-Raw – Doctor Who)
são ótimos coadjuvantes, o primeiro é o charme da série, o
produtor que no fundo eu sonhava em ver com Bradley, o segundo é o controlador
produtor de Alex, que me irritou desde a primeira vez em que o vi, ele tem
aquela tensão e mal humor que incomoda quando a atuação é boa, e a terceira e
não menos importante é uma das diretoras e vítimas de assédio da história,
impossível não se impactar e emocionar com a história de Hannah.
Com a sua segunda temporada confirmada, The morning show me
conquistou pelo seu dinamismo. A série tem vida, história, ritmo acelerado e é
isso que prende a nossa atenção, é o mínimo que uma história requer para ser
satisfatória.
Com um toque de ironia, crítica social, excelente produção,
roteiro bem desenvolvido, elenco de peso, The morning show se consolida e está no meu top dez
das melhores séries de 2019 , é uma série original e disponibilizada pela Apple
TV.
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